O ESPAÇO VIVIDO

 
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O CENTENÁRIO DO 14 BIS

Até hoje ainda se discute quem foi o verdadeiro Pai da Aviação. Na França, por exemplo, citam Clement Ader, que em 1890 tentou voar em um aparelho com forma de morcego, embora tenha se espatifado sem sair do chão. Os russos aclamam Nikolas Jonkovski. A Alemanha briga por Karl Jatho, que teria voado em 1903. A Inglaterra reivindica o nome de Sir Hiram Stevens Maxim (1894). No entanto, a maior polêmica envolve Santos Dumont e os irmãos Wilbur e Orville Wright.

Segundo o diretor do famoso Aeroclube da França, Christophe Carteron, "Nunca haverá um consenso sobre quem voou primeiro. O certo é que Santos Dumont é o detentor do Prêmio Deutsche de la Meurthe, pelo primeiro vôo bem-sucedido em balão dirigível, feito entre Saint-Cloud e a Torre Eiffel, em 1901. E ele também é o detentor do primeiro recorde homologado em aeroplano, com o 14-BIS, em 1906."

Em menos de dez anos, Alberto Santos Dumont contribuiu mais para a evolução da aviação do que todos os que trabalhavam em busca de soluções no então inexplorado e arriscado mundo da aeronáutica. O centenário do vôo do 14Bis, que acontece em 2006, é oportunidade única de resgate da imagem e história de Santos Dumont.

O idealizador e coordenador dos projetos comemorativos, João Henrique Barone Reis e Silva, conversou com o iG Educação sobre aviação e as incríveis histórias de Santos Dumont.

iG Educação - O que há de verdade na polêmica que envolve Santos Dumont e os Irmãos Wright? Que fatos deram origem a esta controvérsia?
É preciso se ter em mente que no início do século XX ninguém havia voado com um aparelho motorizado mais pesado que ar. Poucos, como o alemão Otto Lilienthal, conseguiram realizar vôos planados. Vôos de cerca de 300m e controlados. Bem, controlados,mas não tanto. Em 1896 o próprio Lilienthal despencou de uns 15 metros de altura e morreu.

Os inventores da época ficaram chocados com o acidente e começaram a ter mais medo do que o usual. Em 1900 os Wright, Wilbur e Orville, dois irmãos americanos que se dedicavam à construção de bicicletas, começaram a construir planadores e, logo a seguir, realizaram mais de mil vôos planados. Para evitarem o mesmo acidente que matou Lilienthal, colocaram o leme na frente. Assim evitavam, ou pensavam evitar, que o planador caísse de bico. Por outro lado, o planador ficava instável. Esta solução foi copiada por muitos inventores, inclusive por Santos

Em 1901 correu a notícia de que um certo Gustave Whitehead, um alemão naturalizado americano, havia conseguido voar com um avião, mas só 19 pessoas diziam ter visto. E algumas pareciam estar na dúvida. É bom lembrar, até então, nunca ninguém tinha visto um avião e não sabiam o que era voar.

Em 17 de dezembro de 1903 os Wright comunicaram por telegrama que haviam voado numa máquina. Tinham saído do chão com o auxílio de um vento de cerca de 30km/h e num plano inclinado e tinham conseguido descer uns 300 metros da encosta. Mas não tinha o relato de nenhuma comissão de especialistas e eles não divulgaram as fotos (a famosa foto que conhecemos só apareceu em 1908 e não é a do vôo mais longo; é a foto de um vôo que acabou logo a seguir).

Entre 1904 e 1905 os Wrights diziam que conseguiam voar cada vez mais, mas com uma máquina que não podia decolar. Precisavam de vento forte e regular, ou de um plano inclinado ou do auxílio de uma catapulta. E não mostraram nem a máquina nem as fotografias para ninguém. Todos desconfiavam da autenticidade das notícias.

Em fins de 1905 pairava a dúvida. Teriam os Wrights voado de fato? Aí os dois anunciaram que estavam parando de realizar os seus ensaios, e ninguém entendeu mais nada. Ao mesmo tempo foi criada a Federação Internacional de Aeronáutica que criou critérios para o vôo de um avião. O aparelho deveria decolar com os seus próprios meios (coisa que o avião dos Wright era incapaz de realizar). O vôo deveria ser anunciado com antecedência (outro aspecto que os Wright não poderiam garantir, pois dependiam de condições muito especiais para levantar vôo) e diante de uma comissão e do público (outros aspectos que os Wrights não satisfaziam). Finalmente, o vôo deveria ultrapassar uma marca pré-estabelecida.

Em julho de 1906 Santos Dumont apresentou o seu 14-Bis, um aparelho mais pesado que o ar. Antes de tentar realizar os seus vôos históricos, ele testou o avião pendurando-o no invólucro do dirigível 14 (daí o nome de 14-Bis) por um cabo de 60 metros. Depois foi para o campo de provas, em Bagatelle. Em 7 de setembro de 1906, um primeiro salto. Depois, em 23 de outubro, ganhou a Taça Archdeacon ao voar 60 metros. Em 12 de novembro realizou o primeiro vôo homologado da história, ao percorrer 220 metros a uma altura de seis. Um vôo de 21 segundos. O primeiro vôo que satisfazia os critérios estabelecidos pela Federação Internacional de Aeronáutica.

Em abril de 1907 o 14-Bis caiu, mas nessa época Santos Dumont já estava trabalhando em outro modelo. Logo os americanos, que andavam duvidando dos feitos dos Wrights, começaram a defender os dois irmãos, mesmo sem terem visto qualquer demonstração, pois o avião dos Wrights só foi apresentado em 1908, quando Gabriel Voisin, Louis Blériot, Robert Esnault-Pelterie, Santos Dumont e muitos outros já estavam voando. Mas, verdade seja dita, embora o avião dos Wrights não decolasse sozinho, no ar, voava melhor do que os outros. Como a esta altura, os inventores já soubessem decolar, os Wrights acabaram fazendo sucesso.

Em 2006 vai se comemorar o centenário do 14 Bis. Qual é o significado disto hoje? Que “insights” fundamentais estavam presentes neste primeiro avião e que servem ainda de modelo e referência para a aviação moderna?
O centenário do vôo do 14-Bis é uma data importante. Em cem anos o avião mudou o mundo. O curto vôo de 12 de novembro de 1906, com Santos Dumont a bordo do seu 14-Bis, mostrou ser possível fazer uma máquina mais pesada que o ar que voasse. 
 

A partir de um estudo do 14-Bis, podemos entender as dificuldades que os inventores tinham em conceber tal máquina. A invenção do avião é um modelo muito instrutivo dos caminhos da invenção. As dificuldades que os pioneiros encontraram são, mais ou menos, as mesmas que hoje encontramos quando estamos procurando resolver um problema científico: precisamos mudar as nossas concepções, mudar o nosso modelo mental.
 

E o desenvolvimento do avião, realizado principalmente por Santos Dumont no ano de 1907, é outro exemplo de como o inventor pensa. Santos Dumont mudou o seu modelo mental em cerca de um ano. Após vivenciar vários insucesso, construiu o Demoiselle, o seu invento de número 19 e o primeiro ultra-leve da história. Em 1909 apresentou o segundo modelo do Demoiselle, um avião que é o precursor eficiente de todos os ultraleves.

Fonte: IG EDUCAÇÃO


O Inventor
Alberto Santos-Dumont

 No ano de 1906, o brasileiro Santos-Dumont assombra a população de Paris ao levantar vôo com um aparelho mais pesado que o ar. Por esta e outras invenções, Santos-Dumont é considerado, por muitos, o Pai da Aviação.

A segunda metade do século XIX é uma época marcada por novidades científicas. Nos Estados Unidos, Thomas Edison inventa o primeiro gravador de som - o fonógrafo - e a lâmpada elétrica incandescente. Em Paris, os pioneiros da fotografia dão seus passos iniciais, e os Irmãos Lumière apresentam os primeiros filmes de cinema que se conhece.

A invenção tecnológica estava nas cabeças dos homens do século XIX. O escritor Júio Verne inaugura um novo gênero literário: a ficção científica. A obra de Júlio Verne influenciou fortemente a formação do menino Santos-Dumont.


Santos-Dumont / Acervo TV Cultura

Alberto Santos-Dumont nasce em 1873 na Fazenda Cabangu, interior de Minas Gerais. Ainda adolescente, vai para a França estudar Física, especialmente eletricidade e mecânica. Com o apoio do pai, engenheiro, construtor de ferrovias e próspero fazendeiro de café, Santos-Dumont envereda pelas pesquisas aeronáuticas.
Em 1898, aos 25 anos de idade, voa sobre Paris num balão esférico de vôo livre, chamado BRASIL. Mas o objetivo de Santos-Dumont é conseguir controlar o vôo. Começa a construir um balão equipado com pequeno motor a explosão. Trabalha em sua oficina com um grupo de colaboradores.


Em 1898, mesmo ano do Balão Brasil, Santos-Dumont percorre o céu de Paris com o seu dirigível número um. Ao primeiro dirigível sucedem-se outros, mais aprimorados.

Em 1901, a primeira grande façanha. Santos-Dumont contorna a Torre Eiffel e volta ao ponto de partida em menos de 30 minutos. É grande a popularidade que Santos-Dumont conquista entre os franceses. Multidões acompanham as experiências com seus inventos.

Em 1903, Santos-Dumont põe sua frota de balões à disposição do ministro da guerra da França, para operações militares.


14 BIS / Acervo TV Cultura

Em 1906, Santos-Dumont tenta um feito inédito. Levantar vôo com um aparelho mais pesado que o ar, sem o auxílio de um balão. O 14-BIS , seu primeiro avião, é levado para o Campo de Bagatelle. A multidão acompanha curiosa. O 14-BIS se ergue a mais de dois metros do solo, ao longo de sessenta metros. É a consagração definitiva. A imprensa mundial noticia a proeza.

A novidade seguinte é um pequeno avião apelidado pelos franceses de Demoiselle. Com 110 quilos de peso, o Demoiselle é construído com um eixo de bambu.

Santos-Dumont é também autor de outros inventos menos conhecidos, como o Deslizador Aquático. Também é de sua autoria o relógio de pulso - uma forma por ele encontrada para melhor controlar o tempo de vôo.

Em 23 de julho de 1932, aos 59 anos, Santos-Dumont suicida-se num quarto de hotel, na praia do Guarujá, litoral paulista. Sua obra contribuiu definitivamente para o desenvolvimento da aviação.

Roteiro: Fernando Navarro - TV CULTURA