O ESPAÇO VIVIDO

 

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O dia em que o povo pegou em armas para não ser vacinado



Charge da época. Acervo Casa de Oswaldo Cruz Miguel Conde - Globo Online -
11/10/2004

RIO - O maior levante popular da história do Rio de Janeiro começou há cem anos, em 10 de novembro de 1904, por um motivo que hoje parece intrigante: parte dos cariocas se recusava a ser vacinada contra a varíola, uma doença que de 1891 a 1900 matara 8.837 pessoas no Rio de Janeiro, e de 1901 a 1910 mataria mais 13.450. Mas a Revolta da Vacina, que obrigou o governo a decretar estado de calamidade pública na capital federal, não foi, como à primeira vista pode parecer, apenas um levante da ignorância contra os avanços da ciência moderna.

No dia 31 de outubro de 1904, o Congresso Federal, depois de debates intensos, aprovou a lei que instituía a vacina obrigatória contra a varíola na Capital Federal, o Rio de Janeiro. Entre os opositores da lei estavam liberais como Ruy Barbosa, para quem o Estado não tinha o direito de legislar sobre o corpo dos cidadãos, e positivistas que simplesmente não acreditavam na existência de seres microscópicos, muito menos que eles fossem responsáveis por doenças graves.

A cidade na época era um campo de obras. O prefeito Pereira Passos, indicado ao cargo por Rodrigues Alves, conduzia com mão de ferro uma reforma urbana que remodelava o Centro do Rio à imagem das metrópoles européias, e no processo deixava milhares de desabrigados (estima-se que em torno de 14 mil pessoas tenham ficado sem ter onde morar).

Entre a população, circulava o boato de que a vacina defendida pelo diretor geral da Saúde Pública, Oswaldo Cruz, tinha por objetivo matar os inquilinos dos cortiços dos bairros centrais e facilitar as remoções. A indignação popular era incitada por grupos monarquistas e republicanos radicais que planejavam um golpe de Estado contra Rodrigues Alves.

Cinco dias após a aprovação da lei, é criada a Liga Contra a Vacinação Obrigatória. O medo de morrer por causa da vacina não é o único motivo que inflama o povo. Os agentes de saúde teimam em inocular as mulheres na perna, o que é considerado um atentado sério ao pudor. O decreto que regulamenta a vacinação obrigatória vaza para a imprensa e é publicado num jornal em 9 de novembro. No dia seguinte, 10 de novembro de 1904, a tensão finalmente explode.


A revolta começa na Saúde e se estende a outros bairros da cidade. O povo arranca o calçamento, quebra lampiões e vira bondes. Acuadas, as forças policiais são obrigadas a recuar. O governo declara estado de calamidade pública e as Forças Armadas intervêm, mas não conseguem debelar o conflito. No dia 15, 300 cadetes da Escola Militar, ligados aos militares que controlaram a república em seus primeiros anos, marcham em direção ao Palácio do Catete para derrubar o presidente. Lá, entram em conflito com tropas governistas. Os golpistas se rendem depois que a Marinha bombardeia a Escola Militar, no dia seguinte.

No dia 16, seis dias após o início da revolta, a lei da vacina obrigatória é revogada. A revolta se dispersa e centenas de pessoas são presas e mandadas para presídios no Acre. O conservador e governista Jornal do Commercio, citado pelo historiador Nicolau Sevcenko em seu livro "A Revolta da Vacina", narra assim um dos dias de conflito:

"O chefe de polícia ordenou que a força avançasse para desalojar os amotinados daquela via pública, onde já se erguiam trincheiras e barricadas. Rompeu a cavalaria a galope, descarregando clavinotes, espaldeirando quantos fugitivos alcançava. Descargas cerradas atroavam os ares, tombando vítimas sem conta. Um menino caía morto na calçada do Tesouro. Toda a rua estava cheia de manchas de sangue. Generalizava-se o tumulto, reproduzindo-se as mesmas cenas em quase todas as ruas centrais, como em vários bairros. (...)

Não trafegava um único veículo em toda a cidade. Do alto de uma casa de esquina da rua do Hospício com a do Regente a figura sinistra de um preto ceifava os soldados a tiros certeiros até que dali derribou uma bala de carabina que lhe varou o crânio."

Os presos após o fim da revolta. Acervo Casa de Oswaldo Cruz O saldo do confronto é impressionante mesmo para os padrões de violência do Rio de Janeiro atual: 30 mortos e 110 feridos. A Revolta da Vacina, que completa cem anos em 2004, é o maior levante popular da história do Rio de Janeiro. Surgiu de maneira espontânea, embora a imprensa incitasse a resistência à vacinação, e não chegou a articular-se em torno dos grupos políticos que desejavam derrubar o governo Rodrigues Alves. Para a crítica literária Beatriz Resende, o movimento foi fundamentalmente uma reação aos métodos autoritários da República Velha.


- O que é curioso é que Oswaldo Cruz não está inteiramente sem razão. Mas a revolta é contra o método. É uma coisa autoritária, que se repete na história do Brasil. Não dão explicação, não dizem para quê. Foi o método Pereira Passos na demolição do casario colonial, e é contra isso que o povo se rebela. O interessante é que o governo volta atrás, suspende a obrigatoriedade e começa uma campanha de convencimento. Isso mostra muito a força do espírito crítico carioca, que quando a gente vê se perder dá muita pena - diz.

Para o historiador Carlos Fidélis, coordenador geral do centenário da revolta no Museu da Vida, na Fiocruz, o problema na implantação da vacina foi de comunicação:

- Imagina se criam hoje uma vacina contra a AIDS. Aí, os jornais começam a relatar casos de pessoas que contraíram o vírus da AIDS por causa da vacina e em seguida o governo institui a vacinação obrigatória. Foi isso que aconteceu com a varíola. Em termos de explicação, houve um erro enorme. E num caldo cultural complicado, em que havia moradores e donos de cortiços descontentes com as demolições, especuladores lucrando com as mudanças e monarquistas querendo voltar ao poder.

Já o pesquisador João Carlos Rodrigues, autor de uma biografia de João do Rio, acredita que a revolta pode ter sido superdimensionada pela intelectualidade brasileira:

- A Revolta da Vacina mostra que nem toda revolta é progressista. Essa é reacionária. Mas embora você encontre muitas charges nos jornais da época, há poucas notícias. Acho que a revolta pode ter sido superdimensionada por uma postura dos intelectuais de quererem achar exemplos de levante popular na história do Brasil.

Carlos Fidélis diz que, apesar de a obrigatoriedade da vacina ter sido revogada, pouco depois o povo que resistia em barricadas corria aos postos de saúde pedindo para ser vacinado. Mas ele lembra que até hoje, apesar da adesão maciça da população às campanhas de vacinação, há quem continue desconfiado:

- Pouco depois da revogação da lei houve uma grande epidemia de varíola e a população pedia para ser vacinada. Essas resistências às medidas de combate a epidemias sempre aparecem. Anos mais tarde, na época da Gripe Espanhola, circularam boatos de que o chá servido pelo governo estava envenenado. E até hoje tem idoso que não toma vacina contra a gripe porque acha que o governo quer matá-los para resolver o problema da previdência.
 

Charges incitaram a indignação popular


RIO - No dia 16 de novembro de 1904, terminada a Revolta da Vacina, o futuro cronista e romancista Lima Barreto, ainda um aspirante a escritor de 23 anos, fez estas anotações em seu diário:

"Essa masorca teve grandes vantagens:

1) Demonstrar que o Rio de Janeiro pode ter opinião e defendê-la com armas na mão;

2) diminuir um pouco o fetichismo da farda;

3) desmoralizar a Escola Militar.

Pela primeira vez, eu vi entre nós não se ter medo do homem fardado."

Ao mesmo tempo, o poeta Olavo Bilac, já um artista consagrado, escrevia na Revista Kosmos:

"as arruaças d'este mez, nascidas de uma tolice e prolongada por várias causas, vieram mostrar que nós ainda não somos um povo. No Rio de Janeiro, e em todo o Brasil, os analphabetos são legião. E não há 'povo', onde os analphabetos estão em maioria".
 

O antagonismo das duas posições, citadas no livro ''Lima Barreto e o Rio de Janeiro em fragmentos'', de Beatriz Resende, revela uma cidade que já naquela época poderia ser chamada de partida. Embora Lima Barreto ainda não fosse cronista, a Revolta da Vacina e a Reforma Passos serão tratados por ele no futuro como episódios exemplares da cisão social do Rio de Janeiro, uma questão central em sua obra.
No início do século XX, com grande parte da população ainda analfabeta, a leitura dos jornais era hábito de uma parcela reduzida da sociedade brasileira. Apesar disso, a imprensa teve grande importância na articulação da indignação com a obrigatoriedade da vacina contra a varíola.
 

 legenda Foi a publicação num jornal do projeto de regulamentação da lei da vacina obrigatória que desencadeou a revolta. Além disso, as charges que os jornais e revistas publicavam também contribuíram para a oposição aos métodos de Oswaldo Cruz.

Antes de ser atacado por causa da imposição da vacina, ele foi apelidado de "Napoleão dos mosquitos" pelos humoristas da época, porque implantou no Rio um método cubano de combate à febre amarela, que consistia no combate ao mosquito transmissor da doença (em 1909, graças a esse método, não se registrou nenhum caso de febre amarela no Rio), o que foi visto como uma proposta esdrúxula.

- Essas charges têm um papel muito importante. Algumas inclusive são reproduzidas em muros e postes, quase 100% delas era contrária à vacinação - diz Pedro Paulo Soares, coordenador de museologia do Museu da Vida da Fiocruz.

O pesquisador João Carlos Rodrigues, que escreveu uma biografia do cronista João do Rio, diz que a revolta aparece nos jornais da época mais em charges do que em notícias. A crítica literária Beatriz Resende acredita que uma possível explicação para isso é que os desenhos, ao contrário dos textos, não eram censurados.

- Muitas vezes os jornais eram empastelados, porque aquela era uma república autoritária. Mas ocorria uma coisa bem curiosa: o texto era censurado e o desenho não - observa.

 

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