RECURSO ESTRATÉGICO DO SÉCULO: Água

Eliana Lima

 As águas cobrem três quartos da superfície do planeta Terra. Mais de 97% da água da Terra estão nos oceanos, sendo impróprias para consumo humano. Menos de 3% são água doce, portanto, próprias para consumo. Dessa água doce, 77% estão congeladas nos círculos polares, 22% são compostas de água subterrânea e apenas 1% encontra-se na superfície do planeta: são as águas dos rios, lagos, açudes, represas.
  
As águas doces não são distribuídas de forma igual no mundo todo. A maior parte do Oriente Médio, da África e partes da América Central e do Oeste dos Estados Unidos são carentes em água. Fatos como o uso indiscriminado podem levar as próximas gerações a enfrentar o problema da escassez dessa substância essencial à vida, atualmente fornecida de maneira bastante barata e em qualquer quantidade desejada.
  
 No final deste século, que já está próximo, os habitantes do Planeta Terra consumirão cerca de 6 milhões de metros cúbicos de água potável por dia somente para atender às necessidades mínimas como beber e cozinhar. Entretanto, esses mesmos habitantes poluem os rios e lagos onde captam essa água com cerca de 3 milhões de toneladas de seus dejetos por dia, não contando os detritos e rejeitos industriais. Cerca de 60% do consumo global de água potável -15% do uso doméstico e 20% de irrigação- são extraídos de lençóis subterrâneos, não renováveis. Nos últimos 20 anos, 1.8 bilhões de pessoas agregadas à população mundial diminuíram em um terço o suprimento per capita do planeta. Isto significa mais gente e menos água. A tecnologia pode ajudar, mas não resolve o problema em seu todo. A dessanilização da água do mar ainda é cara (consome muita energia), mas já existem no mundo cerca de 7.500 usinas de dessanilização em funcionamento.

GUERRA DA ÁGUA NO SÉCULO 21

A vazão do mais volumoso rio do mundo, o Amazonas, nos colocará no século 21 em posição vantajosa, semelhante à que hoje ocupam os árabes em relação ao petróleo. Mas até quando?

Uma prestigiosa revista americana publicou recentemente matéria de capa aventando a possibilidade de vir a ocorrer, no próximo século, uma acirrada disputa - incluindo ações bélicas - pelas fontes de água doce do mundo. Como o petróleo, produto essencial para os países industrializados e em vias de industrialização, a água doce será essencial para todos os países do mundo, quando escassearem as fontes desse produto que hoje poluímos sem remorsos e sem pensar no futuro. Desde já, os políticos brasileiros precisam olhar de frente esta questão. Nada menos que 46% do potencial de água doce disponível no mundo se encontram no Brasil, notadamente na Bacia Amazônica. De acordo com o editorial da revista Newsweek, o Brasil será, no decorrer do século 21, uma espécie de fiel escudeiro da balança da água, assim como é hoje a Arábia Saudita, na balança do petróleo. Segundo a revista, países de todo o mundo, onde a água será escassa ou poluída demais, virão até a foz do Amazonas comprar água doce, como hoje muitos países vão ao Oriente Médio comprar o petróleo que lhes falta.

"A torneira do mundo vai secar no século 21". Esta foi uma das advertências feitas na Conferência do Cairo sobre População e Desenvolvimento, ocorrida em 94 e patrocinada pela ONU. Logicamente, é uma frase de efeito. A grande seca que afetará o planeta e sua excessiva população no próximo século não é só aquela evidente nas alterações climáticas e na conseqüente redução das chuvas, mas também a falta de água potável para atender às necessidades básicas de cerca de 6 bilhões de seres humanos. Então, o mundo estará pedindo água para molhar lavouras e produzir alimentos, bem como para beber e cozinhar.

A quantidade mínima de água por dia necessária para a vida de uma pessoa varia conforme seu padrão de vida e os seus hábitos tradicionais. Se considerarmos unicamente a água para beber e cozinhar, a humanidade consome diariamente algo ao redor de 1 litro por habitante, ou seja, 6 bilhões de litros, 6 milhões de toneladas, 6 milhões de metros cúbicos. O rio Amazonas tem uma vazão de 80 mil metros cúbicos por segundo. Traçando um parâmetro por estes dados, o consumo diário da humanidade, somente para atender às necessidades elementares e mínimas, corresponde à vazão total do mais volumoso rio do mundo durante 1 minutos e 35 segundos. É caso para se pensar.

A ILUSÃO DA ABUNDÂNCIA

A água potável do planeta está acabando, premida por aumentos de consumo e da demanda. Dos 6 bilhões de pessoas que existem no mundo, no ano de 2050 serão 10,5 bilhões. Com a melhoria da qualidade de vida, o consumo per capita cresce mais rápido do que a população. Além disso, grande parte das reservas não é renovável. Enquanto for barata, a água será desperdiçada: com preço adequado será tratada como merece: um bem precioso. O Japão já importa água doce da Coréia do Sul.

E no Brasil supõe-se que a água jamais será problema. Ledo engano. Atualmente já é. O país tem as maiores reservas de água doce do mundo (ver box), só proporcionais às suas taxas de desperdício: 40% na rede pública. Mas a distribuição geográfica irregular e a urbanização crescente pressionam o abastecimento deficiente. O Brasil tem a maior bacia fluvial do mundo (Amazonas), seca no Nordeste, desertificação no Sul e falta d'água em São Paulo. Tudo junto.

São Paulo resume o problema. Recebe bom volume de chuvas e dispõe de muitos rios, todos barreados (com exceção do rio Ribeira do Iguape), mas vive em regime de racionamento camuflado com o crescimento galopante da demanda: em 1989, 290 mil litros por segundo;  em 96, cerca de 500 mil; em 2010, a previsão é de 880 mil l/s. No estado a irrigação agrícola sorve 43% da água disponível, a indústria 32% e as cidades, 25%. Aos ricos não falta água, aos pobres faltam água, esgoto e mais algumas coisas, que aqui não cabe discutir.

BACIAS HIDROGRÁFICAS

A maior delas é formada pelo rio Amazonas e seus tributários, compreendendo uma área de 7 milhões de quilômetros quadrados. A segunda do mundo é a bacia do rio Paraná, com 4,3 milhões de Km2  Não esquecer que elas participam também do território de países vizinhos, o que aumenta ainda mais o tamanho. Só para efeito de comparação, a bacia do rio Congo, na África, tem 3,7 milhões de Km2. Já a do rio Nilo é menor, com 2,8 milhões de Km2.

MORTE DOS RIOS DO MUNDO

Instituído pela ONU em 92, o Dia Mundial da Água é comemorado em 22 de março, mas no Brasil não há muito o que se comemorar.

Na região Norte, os recursos abundantes da Amazônia estão muito distantes de onde são necessários. O mau uso também pressiona as reservas: há crescente contaminação de agrotóxicos, mercúrio dos garimpos e lixo. No Brasil, rio é sinônimo de lixo: 63% dos 12 mil depósitos de lixo são corpos d'água. E como a água não é tratada, 63% das internações pediátricas e 30% das mortes infantis com menos de um ano devem-se à falta de saneamento básico. Um problema puxa o outro: poluição das águas, morte dos rios, morte das pessoas.

Mesmo em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, a falta d'água e saneamento básico são problemas cruciais. Lá somente 51% das pessoas têm acesso à água potável. Considerado o país de maior desenvolvimento do planeta, os Estados Unidos sofrem com 15 milhões de pessoas que bebem água de fontes não potáveis e outros 30 milhões que carecem de saneamento básico. Nos países chamados de terceiro mundo, o problema é devastador. Dentre os habitats mais ameaçados pela poluição das águas estão o lago Vitória, na África, e os rios mexicanos. Mas a crise é mundial. Cerca de um quinto das 9 mil espécies de peixes de água doce do planeta desapareceu nos últimos anos ou está em vias de desaparecer.

O pior é que os lagos e rios recebem enormes quantidades de esgotos, detritos industriais e outros escoamentos - como enxurradas, que levam terra, areia e lixo - de áreas urbanas. Esses detritos estão poluindo as águas, tanto superficiais como subterrâneas, das quais as gerações futuras dependerão para viver. No inicio do próximo século quase metade da população mundial viverá nas grandes cidades. Abastecer de água essa população exigirá melhorias radicais no controle desse recurso. E mais: com a urbanização e o crescimento da industrialização, os esforços para controlar a poluição das águas devem ser expandidos. Felizmente, experiências meritórias já estão sendo executadas, como a Fiat de Betim (MG) e a Cia. Cacique de Café, em Londrina, PR, que reciclam as águas industriais. Conseguem uma economia de custo ímpar.

Outra ótima experiência para vencer a barreira da falta d'água. O governo do Ceará com um projeto modesto investiu 48 milhões de dólares e venceu a seca da capital, com a construção dos 118 km do Canal do Trabalhador, ligando Fortaleza ao Açude de Orós e ao rio Jaguaribe. No exterior também há experiências destacáveis. O rio Reno, hoje recebe somente 10% dos dejetos que eram jogados em 1970. Com estes exemplos verificamos que somente um planejamento racional poderá preservar a água doce, que embora ocupe apenas 1% da superfície terrestre, concentra 12% de todas as espécies animais conhecidas. É a fonte da vida, senão ela própria.

A autora é  jornalista da Embrapa Meio Ambiente.
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