Água e problemas climáticos serão temas centrais no FSM

Marco Aurélio Weissheimer - 17/12/2004


Agência Carta Maior

Ameaças de privatização do acesso à água, destruição de recursos naturais e crescentes desequilíbrios ambientais do planeta terão um papel estratégico nos debates do Fórum Social Mundial 2005. Objetivo é criar uma agenda global de lutas.
 

 Porto Alegre – O quadro de escassez de fontes de água potável no planeta, as ameaças de privatização do acesso à água e o crescente desequilíbrio climático global serão alguns dos temas centrais da quinta edição do Fórum Social Mundial, que será realizado de 26 a 31 de janeiro, em Porto Alegre. Segundo informações divulgadas pela organização do evento, a questão da água despertou grande interesse na organização da agenda temática do FSM 2005. Das 162 atividades inscritas no espaço temático "Afirmando e Defendendo os Bens Comuns da Terra e dos Povos", 32 estão ligadas ao problema do acesso à água. A maioria delas pretende discutir a ameaça da privatização do setor e a necessidade de reconhecimento do acesso à água como um direito universal.

O espaço temático sobre os bens comuns da Terra e dos povos também tratará de temas como justiça ambiental, consumo sustentável, transgênicos e democracia tecnológica, segurança e soberania alimentar no contexto dos acordos comerciais.

O segundo item mais concorrido nesse espaço temático é o clima, com 19 atividades inscritas. Entre elas, os debates sobre as crescentes conseqüências negativas do efeito estufa ganham destaque. Um recente relatório elaborado pelo Pentágono sobre o tema adverte que as catástrofes climáticas provocadas pelo aquecimento global do planeta poderão começar aparecer já nos próximos 20 anos. O derretimento de geleiras no Ártico, segundo esse estudo, poderia empurrar icebergs para a costa de Portugal e Holanda, reduzindo drasticamente a temperatura no Hemisfério Norte, especialmente na Europa. O crescimento de doenças tropicais no Hemisfério Sul e o agravamento de conflitos bélicos pelo controle de recursos naturais e fontes de energia seriam outras conseqüências desse quadro de deterioração ambiental, que hoje alimenta crescentemente filmes de ficção científica.

Números alarmantes
No caso da água, a ficção já se aproxima perigosamente da realidade. Os números dimensionam bem o tamanho do problema a ser enfrentado. Segundo dados divulgados pelo economista italiano, Ricardo Petrella, professor da Universidade Católica de Louvain, da Bélgica, no início do século XXI, cerca de 1,5 bilhão de pessoas não têm acesso à água potável. Cerca de 2,4 bilhões vivem em áreas sem qualquer tipo de tratamento sanitário. Como conseqüência desse quadro, a cada dia, cerca de 30 mil pessoas morrem vítimas de doenças relacionadas à falta de acesso à água de qualidade. Um número dez vezes maior, lembra Petrella, ao número de vítimas do atentado contra as torres do World Trade Center, em Nova York. O economista estima que, a se manterem as tendências atuais, em 20 anos essa situação ficará ainda mais grave, com cerca de 3 bilhões de pessoas vivendo na miséria absoluta, sem água e alimentação de qualidade.

E a escassez do aceso agrava-se pela escassez das fontes de água potável. Estima-se que menos de 2% das reservas de água doce do planeta estão disponíveis para consumo humano. Cerca de 80 países já enfrentam hoje sérios problemas de abastecimento, alimentando inclusive conflitos militares.

Nos primeiros 50 anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, o mundo perdeu cerca de 62,7% de suas reservas de água potável. A redução mais drástica ocorreu na África, onde houve uma perda de 75% das fontes de água potável. Na seqüência desse ranking macabro, aparece a América Latina, com uma perda de 73%. A prosseguir essa tendência, segundo alerta feito em 1999 pelo Banco Mundial e por inúmeras entidades ambientalistas, a água será, no século XXI, um recurso escasso e estratégico, possível fonte de disputas e guerras, assim como é o petróleo hoje.

A facilitadora do espaço temático que discutirá esse problema, Tânia Pacheco, da Federação Brasileira das Organizações Não-Governamentais, espera que o FSM 2005 consiga construir um plano de atuação em escala planetária com o objetivo de modificar esse cenário. Entre as propostas já levantadas para a construção dessa agenda está a da adoção de um sistema de financiamento público, articulado pelos países desenvolvidos, para garantir o acesso à água potável nas regiões mais pobres do planeta.

A situação da água no Brasil
E o Brasil não é uma exceção neste cenário. Segundo levantamento do Ministério das Cidades, atualmente cerca de 45 milhões de brasileiros não têm acesso à água de qualidade em suas casas. Destes, 26 milhões moram em cidades. Além disso, mais da metade da população (cerca de 83 milhões de pessoas) não tem acesso à rede de esgoto. Estimativas oficiais apontam que, para zerar esse déficit, seria necessário investir 0,45% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, um valor na casa dos R$ 178 bilhões nos próximos 20 anos.

Se, por um lado, o problema do acesso à água e ao saneamento constitui um grave problema social, por outro, o Brasil ocupa uma posição estratégica neste tema, por compartilhar 74 das 270 bacias hidrográficas situadas em regiões de fronteira. Segundo Ninon Machado, coordenadora do GT Água do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais e diretora executiva do Instituto Ipanema, essa situação proporciona ao país a condição de se colocar como uma potência solidária e não dominadora. O Brasil possui uma das maiores fontes de água potável do planeta (cerca de 12% da água potável do mundo, o que equivale a algo em torno de 53% das reservas da América Latina).

* Com informações da Assessoria de Imprensa do FSM 2005