Destruição de fontes de água ameaça futuro da humanidade

 

Por Marco Aurélio Weissheimer - 17 de Novembro de 2004

Apesar dos insistentes alertas, destruição das reservas de água potável continua. Tema será objeto dos debates do II Fórum Internacional das Águas, que reúne nos próximos dias, em Porto Alegre, autoridades e especialistas de vários países.

Porto Alegre - Nos primeiros 50 anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, o mundo perdeu cerca de 62,7% de suas reservas de água potável. A redução mais drástica ocorreu na África, onde houve uma perda de 75% das fontes de água potável. Na seqüência desse ranking macabro, aparece a América Latina, com uma perda de 73%. A prosseguir essa tendência, segundo alerta feito em 1999 pelo Banco Mundial e por inúmeras entidades ambientalistas, a água será, no século XXI, um recurso escasso e estratégico, possível fonte de disputas e guerras, assim como é o petróleo hoje.

Esse é o cenário que acompanha os debates sobre a situação das fontes de água potável no planeta, tema central do II Fórum Internacional das Águas que, de 9 a 13 de novembro, reúne em Porto Alegre autoridades e especialistas de vários países. Promovido pela Associação Riograndense de Imprensa (ARI), com apoio da Organização das Nações Unidas (ONU), governo federal, estadual e prefeitura de Porto Alegre, o Fórum retoma uma agenda que vem sendo negligenciada nos principais debates geopolíticos atuais. Tudo se passa como se o problema ainda permanecesse ao terreno da ficção científica, com a apresentação de cenários futuristas onde a água se transforma numa fonte de disputa bélica entre os povos. Na verdade, esses cenários já se materializam no presente, como no Oriente Médio, por exemplo, onde as fontes e água potável são uma das razões da ocupação de territórios palestinos promovida por Israel.

No início do século XXI, aproximadamente 250 milhões de pessoas, espalhadas em 26 país, sobrevivem enfrentando uma falta crônica do recurso. Segundo previsões da ONU, em 30 anos, esse número deve subir para 3 bilhões, afetando diretamente 52 países.

Escassez de reservas, destruição em excesso
Ao contrário do que muita gente pode imaginar, entre os recursos líquidos, a água doce é minoritária no planeta. Segundo dados apresentados na Conferência da ONU para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, cerca de 97% da água do planeta é salgada e imprópria para o consumo humano, sem tratamentos especiais, ainda muito caros. Apenas 3% das reservas mundiais de água são doces. Destas, cerca de 2,3% estão armazenadas nas geleiras e nas calotas polares. Ou seja, somente 0,7% das reservas de água está no subsolo, lagos e rios. O Brasil ocupa uma posição estratégica nesta disputa, possuindo uma das maiores fontes de água potável do planeta (cerca de 12% da água potável do mundo, o que equivale a algo em torno de 53% das reservas da América Latina).

Esse volume de reservas, no entanto, não é sinônimo de ausência de problemas. Estima-se que o desperdício de água, no Brasil, anda por volta de 40%. Além disso, nas regiões mais pobres do país as redes de abastecimento e saneamento são extremamente precárias. Os especialistas da área prevêem que grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo enfrentarão sérios problemas de abastecimento nos próximos anos. Ao tema do desperdício e da má gestão dos recursos existentes, soma-se a crescente degradação das fontes de água potável em função da poluição causada por indústrias e agroquímicos. Apesar dos insistentes alertas divulgados nos últimos anos, a lógica do lucro imediato continua empurrando com a barriga e agravando um quadro que já é altamente preocupante.



Privatização ameaça direitos fundamentais


Encontros como o Fórum Internacional das Águas têm se multiplicado pelo planeta, sem conseguir, porém, convencer concretamente empresários e governos sobre a necessidade de soluções imediatas para reverter o quadro atual. Se as previsões da ONU e dos especialistas se confirmarem, dentro de três décadas aproximadamente, a população da Terra chegará a 8 bilhões de pessoas, cada vez mais concentrada em torno de grandes cidades.

Esse crescimento exigirá, entre outras coisas, um aumento na produção de alimentos e de energia, provocando também uma elevação das taxas de consumo. No modelo econômico atual, essa tendência é sinônimo de crescente destruição ambiental. Considerando que a demanda mundial por água potável tem dobrado a cada 21 anos, pode-se ver o quadro caótico que aguarda a humanidade se nada for feito para interromper o atual ciclo de destruição.

Outro problema a ser enfrentado neste cenário é a voracidade de grupos empresariais que incluíram a água em sua agenda comercial. As tentativas de privatização dos serviços de abastecimento e saneamento proliferam pelo planeta, passando a integrar as pautas de negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) e de propostas como a da criação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA).

Embora o acesso universal à água já tenha sido estabelecido pela ONU como um direito fundamental de toda a humanidade, esses grupos empresariais pressionam os governos para incluir os recursos hídricos na pauta das transações comerciais. Um dos méritos de eventos como o Fórum das Águas é justamente o de denunciar essa ofensiva que ameaça a segurança da humanidade e a estabilidade ambiental do planeta.

(Fonte: Agência Carta Maior)